Terça-feira, 6 de Novembro de 2012

Sem vontade de nada

 

Sem vontade de nada.

Sem vontade de levantar. Para quê? Fazer comida? Limpar a casa? Amanhã. Hoje não. Dá para ver um pouco de televisão. Dá para chorar e rir. Chorar é mais fácil.

 

Lê o jornal e "Que mundo horrível!". Não dá vontade de fazer nada. Um amigo convida para o cinema. "Hoje não, tenho compromissos." Compromisso com a cama, com o sofá, com o sumo, a comida que pede por telefone.

Só em questão de absoluta emergência tem de se vestir para ir ao banco. Toma banho, "Ah! Que delícia!".

As roupas ficaram apertadas. E agora? Veste com o fecho aberto, um casaco por cima. Uh! Para o sacrifício da rua, das pessoas, do mundo sujo e torpe, sem esperança, sem motivação, sem nada.

Como se fosse branco-e-preto o colorido do céu azul, a nuvem branca, a parede vermelha, a roupa verde, o sol dourado, a criança correndo, a senhora de bengala, o executivo apressado no telemóvel sem parar.

 

Caixa de banco olha para a fila e suspira. Chegou mais um. Ninguém me ajuda. Disseram que o caixa eletrônico resolveria. Devagar vai atendendo - afinal, tem tanto tempo e precisa não errar.

Na fila já se irrita. Demora demais, que horror. Pensa que eu tenho todo o dia? Cara fechada, ranzinza. Grita com um e com outro e se autoconfirma: "O mundo não presta, as pessoas são más".

Volta para casa com sacos de compras, de roupas, comidas, revistas, livros, CD e DVDs.

De novo se enfurna na internet. Joga paciência, procura amor virtual ouvindo música alto, cantando, para afastar o pranto. Conta piada no telefone, reclama das contas, das pessoas, do desemprego, das dificuldades. Retorna para a TV, para o DVD, para a cama - ninho precioso, local abençoado, livre de tudo e de todos.

Encolhe-se de lado e dorme. Sonha com anjos e lobisomem. Campos de flor- e trovadores. Campos arados e queimados. Bombas, pavores, amores, tremores. Vira do outro lado e sonha.

Se um dia sonhasse que acordava. O que perceberia?

Depressão é passageira. Mesmo que esteja na direção, no controle central. Vem e vai. Não se apegue. Não a segure. Deixe-a partir. Ela sai de leve se você, pára de reclamar. Se olhar para fora de sua gaiola. A porta está aberta, a grade é de vento.

 

 

Será que Buda saberia ajudar a acabar com a depressão? A pessoa até quer sair dessa trama, mas não consegue. Está amarrada, presa, enroscada. É infeliz, sofre demais, doença danada.

O que é saúde? Cinco frutas por dia, dizia um senhor ao meu lado. Apenas a garça voando baixinho de volta ao ninho.

 

De repente, abre a janela, respira fundo, parece que ela se foi.

 

Arruma o quarto, guarda as roupas, leva outras para a lavandaria, toma banho, veste-se, lê o jornal, toma café, sai para levar o pobre do cão a passear. Cumprimenta as pessoas, sorri.

 

Aquece-se com o sol. Árvore frondosa abraça e se firma. Vai fazer cursos, procura emprego, namora e se entrega à vida sem medo.

 

A depressão foi-se.

 

Tudo é possível, mas fica uma sombra: E se ela voltar?

 

Não adianta fechar as janelas, pôr tranca nas portas, se esconder em algum altar. Ela pode voltar.

 

Então receba, com dignidade. Conhecida depressão, vem ver-me. Estou preparada para recebê-la. Conheço sua manha, suas trapaças. Conheço bem os seus disfarces. Já não me controla, já não me derruba, apenas me deixa com mais algumas rugas."

 

 

Autor: Monja Coen

Fonte: Livro - Sempre Zen

sinto-me:

publicado por anitta às 20:49
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