Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017

Chove. Há Silêncio

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

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publicado por anitta às 10:07
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Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013

Tudo quanto Sonhei se Foi Perdido

 

O que sonhei e antes de vivido 
Era perfeito e lúcido e divino, 
Tudo quanto sonhei se foi perdido 
Nas ondas caprichosas do destino. 

Que os fados em mim mesmo depuseram 
Razões de ser e de não ser, contrárias, 
Nas emoções que, dentro em mim, cresceram 
Tumultuosas, carinhosas, várias. 

Naqueles seres que fui dentro de um ser, 
Que viveram de mais para eu viver 
A minha vida luminosa e calma, 

Se desdobraram gestos de menino 
E rudes arremedos de assassino. 
Foram almas de mais numa só alma. 

Francisco Bugalho, in "Dispersos e Inéditos"

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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

A PARAGEM DO TEMPO

 

Ficámos na paragem do tempo o tempo suficiente para ele passar por nós.

Nesse momento infinito, em que o olhar dançava entre as urzes e o mar, a brisa quente de junho namorou o poema.

 

 

 

Onde ficava o mundo?

Só pinhais, matos, charnecas e milho

para a fome dos olhos.

Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.

E o mar? E a cidade? E os rios?

Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,

onde chiam carros de bois e há poças de chuva.

Onde ficava o mundo?

Nem a alma sabia julgar.

Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.

Em cada dia o povo abraçava um outro povo.

E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:

a estrada branca e menina é uma serpente ondulada

e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.”

 

 

Fernando Namora, in ‘Terra’



hoje eu sinto a parada no tempo!.

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Domingo, 4 de Novembro de 2012

Pensamento solitário

 

 

 

Vejam a sociedade amontoada
em esquinas sujas e perigosas
São crianças sem espaço
São jovens sem idéias

E os adultos? Estão sempre sem tempo
Escória! Desilusão! Medo!
Crianças reprimidas, jovens alienados
Gente sem nada para pensar

É o mal...
São flores da falta de futuro
E frutos nascem como pobreza
Como tristeza

É na Terra e no Universo
Planeta solitário 
Assim como os habitantes
Cada um em seu viver...

É um mundo realmente triste...
Apatia... chega de miséria
Por favor, dê- me a mão
E converse um pouco comigo... um pouco!

 

Luiz Guilherme

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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012

VIVER BEM

Viver bem é não complicar muito a vida

Viver bem é enxergar o lado bom de uma dor

Viver bem é acreditar que pra tudo tem saída

Viver bem é apreciar um simples, mas puro amor.

 

Viver bem é não se preocupar em ter riqueza material

Viver bem é acreditar sempre na felicidade

Viver bem é manter pra sempre o espírito jovial

Viver bem é praticar uma bondade

 

Viver bem é ter amigos pra fazerem laço

Viver bem é aceitar qualquer batalha

Viver bem é conseguir lidar com o fracasso

Viver bem é saber que a justiça tarda mais não falha

 

Viver bem é manter as chamas dos sonhos acesos

Viver bem é não sofrer pelo que não se pode mudar

Viver bem é nunca manter no seu coração, impureza

Viver bem é jamais desistir de lutar.

 

Viva bem.

 

 

Autor :             

Tiago Meneses

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Quinta-feira, 11 de Março de 2010

Impetuoso

 

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 Impetuoso, o teu corpo é como um rio

onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

 

 

 

Eugénio de Andrade

 

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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Descem as águas calmas

 

 

 

 

 

Descem as águas calmas da nascente
Fluem
rodopiantes nas pedras moldadas pelo tempo
Ecos suaves crescem e expandem o sol
Na
Mais bela cor que é a tua

Tem asas o teu espírito na imensidão
Onde borbulham orvalhos
Películas coloridas matinais
Nos sonhos despertos em ti

Cantas melodias, expandem-se universos
Falas do amor, da Humanidade
As palavras soltam na ponta dos teus dedos
O gosto a mel num olhar verdejado

O coração nobre, num olhar espelhado
Correm flores, saltam pássaros
Esvoaçam
borboletas
Num sorriso
único desenhado
 
Dan Gibson
http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=118005
 
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publicado por anitta às 14:59
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Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

 

 

 

       Ricardo Reis

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Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Olhando o mar, sonho sem ter de quê

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

 

 

 


                 Fernando Pessoa

 

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Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Tenho pena e não respondo

Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros --- cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?

 

 

 Fernando Pessoa

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