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ANITTA BARROCO

"AQUAE FLAVIAE"

"AQUAE FLAVIAE"

RETRATO

A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.

Há quem, tendo-a metida

num cofre até às mais fundas raízes,

simule não ter pele, quando

de facto ela não está

senão um pouco atrasada relação ao coração.

Com ele porém não era assim.

A pele ia imitando o céu como podia.

Pequena, solitária, era uma pele metida

consigo mesma e que servia

de poço, onde além de água ele procura protecção.

 

Sabíamos do mar sem o sabermos

Sabíamos do mar sem o sabermos,
do mar dos mapas, da cor azul do mar,
dos naufrágios no mar,
do sol solto no mar.

Sabíamos do mar sem o sentirmos
nos poros dilatados pelo mar,
o verdejante mar escalando as montanhas
tão bruscas como o sal.

Sabíamos do mar em sinuosos sinos
assinalando a noite
com corações arrepiados,
abertos como mãos
sulcadas de cabelos e molhadas
de rugas e escamas.

Sabíamos do mar em signos, símbolos,
tropos e metáforas.
Sabíamos do mar?
Sabíamos o mar.
Sabíamos a mar

http://nescritas.nletras.com/poetasarir/PoetasaRir/archives/2012_09.html

escrevias pela...

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

Alguns instantes

Onde é que guardo o tempo? Posso agora dizer-vos
que é dentro dos olhos. Mesmo que se conservem assim límpidos
acabam por pousar neles algumas folhas. Procuro depois
que seja mais fácil este caminho onde se encontram os vestígios
dos meus passos, de qualquer encontro, de um gesto ainda
furtivo. Quantas sombras existem aí e me pertencem? Sei
que o repouso é menos que uma palavra. Talvez cheguem
as mesmas ondas que julgávamos estar há muito esquecidas,
a neblina parece ser um arco onde se reúne
o que ficou abandonado para sempre. É assim que começo a medir
o tempo. Alguns instantes reservo-os para a profundidade
da água; outros para o modo como as minhas mãos estremecem.

"Dança comigo..."

Dança comigo?

 

 

 

 

Dança comigo, e segura minha mão,

Me deixo conduzir por ti e pela música.

Precisão de movimentos numa linguagem poética!

Dança comigo,expressando emoções

que invadem o corpo,  desnudam a alma...

Faz com que nossos corpos se aproximem.

Suavemente coloca minha cabeça em teu peito

Aperta-me no teu coração.

Como é bom sentir a tua mão

espalmada em minhas costas.

Dança comigo,

Deixa a música da minha ternura, ser a sinfonia da tua alma.

Não quero abrir os olhos, deixa que este momento

seja eterno.

Vem...

Dança comigo.

Não apresses esta hora mágica.

Vem ,dança comigo...

Até à eternidade do nosso sonhar...

Até a música acabar...

Ou até aonde o amor for capaz de nos levar...

Dança comigo...

 

NÃO QUERO, NÃO

"Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,
seja baio ou alazão,
sentir o vento na cara,
sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:
quero saber-lhe a razão,
sentir-me dono de mim,
ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão. "

As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória
Inseguras navegam:
barcos, beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz e são de noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos seio peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugenio de Andrade


"O Homem ou é Tonto ou é Mulher"

 

 

"Tenho pedras no bolso.
Muitas pedras no bolso.
Troco duas pedras por uma máquina de pensar.
Quando penso dói-me a cabeça.
Daí as pedras
Tenho 5 pedras no bolso porque penso mal 5 vezes.
Tenho 5 pedras nos bolsos"

 

Mãos

 

Os nomes que dei às mãos
desenham-se tão perto de mim
que compreendo o desejo sem fantasmas.

Nos dedos principiam as marés
e neles se misturam o reflexo e a máscara
de regressos e errâncias por equacionar.

Os olhos não se fixam na geografia
visível das linhas. Os corpos deixam
de ser um cais. O mar estremece
nos ossos como um sismo.

O primeiro sinal de naufrágio
percebe-se na palma da mão
mesmo quando os barcos
passam ao largo do nosso desalento.

Rente à solidão.

Na trajectória do vazio
onde inventamos os sons.

http://nescritas.nletras.com/poetasarir/PoetasaRir/archives/2012_08.html

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