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ANITTA BARROCO

"AQUAE FLAVIAE"

"AQUAE FLAVIAE"

o sonho da joana

O sonho

Autor: Joana Barroco

Sabes aquela sensação quando acordas de que o sonho que acabaste de ter parece mais real que a própria realidade?..

 

Pois...

 

Eu sonho muitas vezes, e tu?

Sonhei contigo esta noite. Parecias tão real.

 

Chovia. E tu eras tão real que chego a imaginar que sonhei. Acho que sonhei…

 

Senti as gotas de chuva bater nas minhas calças imundas de lama. Comecei a notar um arrepio que subia, contornava o meu umbigo e eriçava-me os pêlos da barriga e dos braços. A ponta do meu nariz gelava e os meus lábios começavam a descamar. Estava frio.

 

Chegaste perto de mim. Chegaste demasiado perto de mim… Tocaste ao de leve no meu ombro com o teu e com a tua mão tentaste agarrar o guarda-chuva. Acho que era preto… Devia ser.

 

É tudo preto sempre, não sabias?

 

Palpitou dentro de mim, essa aproximação inesperadamente esperada. Há tanto tempo que eu queria ter-te assim, tocar-te e saber que és real... Não, que foste real, agora és só um sonho.

 

Creio que ainda sei o teu tom de voz ou de outra forma não a teria ouvido.

 

“Está um dia frio.” – Disseste.

 

“Não. Está uma noite fria...” – Respondi com a sobrancelha erguida e o lábio superior contraído, naquele tom irónico que tanto odeias. Só poderei imaginar o teu pensamento exactamente nesse instante. Provavelmente nem ouviste.

 

Nunca ninguém ouve, não sabias?

 

Quis dizer-te tantas palavras! Quis mesmo articular palavras que fizessem algum sentido, mas a garganta estava seca e as cordas vocais arranhavam-se sempre que abria a boca… Foram uns segundos muito incómodos, quando o silêncio tomou conta do espaço mínimo onde me encontrava…

 

Estava mesmo frio.

 

Não sei quanto tempo ali ficámos. Quase de certeza que pouco. Ou então muito. Não sei, foi um sonho…

Os meus nervos olfactivos detectaram o odor que o teu corpo emanava. Aquele que eu sentia quando aquecia o meu nariz na depressão entre o teu pescoço e a tua clavícula, entre a tua razão e o teu sentimento, mesmo ao pé do teu coração… O mesmo nariz que agora gelava e doía do frio… O mesmo nariz que agora não tinha capacidade de se encostar e sentir a suavidade da tua camisola, aquela desgastada pelo uso.

 

Está tudo tão gasto, não sabias?

 

Senti uma dor no peito. Uma dor mesmo forte. Parecia que larvas estavam a comer-me de dentro para fora! Parecia que o meu coração ia rebentar a qualquer momento! Parecia que o que tinha guardado durante tantos anos estava prestes a sair e a espalhar-se para todo o mundo como uma epidemia fatal! Parecia que ia morrer…

 

Vamos todos morrer, não sabias?..

 

Senti os meus músculos intercostais íntimos a contrair o mais que podiam. Senti os meus pulmões esmagados pelas costelas e senti o meu coração partir…

 

Todos os corações se partem, não sabias?

 

Abri os olhos. Acho que ainda é de noite pois deixei a persiana fechada e não há luz que incrimine o Sol de iluminar este mundo. O meu peito já não dói… Acho que nunca doeu. Ou então doeu. Não sei, era um sonho.

 

Já não tenho frio, nem sinto o nariz gelado sequer. Estou até muito confortável… Exceto que algo está errado, algo que ainda não me lembro… Não sei se algum dia me irei lembrar, provavelmente não… Provavelmente é tudo um sonho… Não. De certeza que é tudo um sonho. E de certeza que tu és um sonho. Ou foste um sonho. Não sei, tenho muito sono ainda.

 

Vou voltar a dormir.

 

Vou voltar para ti. Vou voltar ao dia chuvoso e frio em que já é de noite e tudo é preto. Vou voltar ao dia em que és real e ainda não me abandonaste. Vou voltar ao dia em que ainda não abandonaste este mundo... Vou voltar ao dia em… Vou voltar ao… Vou...

 

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