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ANITTA BARROCO

"AQUAE FLAVIAE"

"AQUAE FLAVIAE"

UM MILAGRE DE NATAL

 

Era dia de Natal e, no orfanato Santa Terezinha, terminara o almoço das crianças que ali viviam por não terem família. Era hora de brincarem no pátio e no parquinho. Algumas se divertiam jogando bola, outras nos brinquedos do parquinho. O carrossel era o preferido. A irmã Josélia monitorava as brincadeiras para evitar acidente porque, duas semanas antes do Natal, uma das crianças, a Luisinha, caiu do escorregador sofrendo fratura de joelho. Em virtude deste acidente, Luisinha permanecia hospitalizada e não pôde participar da festa de Natal.

Cristina, amiga de Luisinha, estava triste com a ausência da amiga. Chorou muito. A irmã Josélia a consolava dizendo:

- São apenas alguns dias, logo Luisinha estará aqui entre nós. Vamos rezar para que ela fique boa bem rápido. Tá Bom?

Não adiantava. A saudade era grande e Cristina não podia evitar a tristeza, tanto não podia que estava sentada no balanço do parquinho falando:

- Deus, por que você não tira a minha amiga daquele hospital? Sabe, Deus! Eu queria ser uma médica para curar o joelho da Luisinha. Não só curar a Luisinha, mas toda gente que fica doente.

Quando a menina terminou de falar viu, ao seu lado, um homem alto de cabelos brancos, com uns olhos tão brilhantes que não dava para identificar a cor.

- Está falando com alguém, pequenina? – perguntou o homem com um sorriso simpático.

- Estou sim. Estou falando com Deus.

- E ele respondeu? – perguntou o desconhecido.

- Ainda não, mas vai responder. Ele nunca deixa de atender a gente. – respondeu a criança.

- E o que estava, a menina, falando com ele?

- Eu pedi que ele curasse a minha amiga. Hoje é Natal e eu não consegui entregar o presente dela.

Meteu a mão no bolso do avental e tirou uma folha de papel onde estava desenhada uma árvore de natal com os dizeres: “Para a Luisinha, um Feliz Natal, da amiga Cristina” e, mostrando, disse ao homem:

- Este é o meu presente pra ela. Eu fiz na aula de desenho.

- É lindo como a sua amizade por ela. – disse o estranho.

- Você tem família? Por que está aqui no dia de Natal? Devia estar com seus filhos. Você tem filhos? Onde você mora?

- Quanta pergunta, Cristina! Disse ele sorrindo.

- Como sabe o meu nome? eu nem disse pra você!

- Eu sei muitos nomes. Você não imagina quantos.

- Quem é você? Qual o seu nome? – perguntou Cristina curiosa.

- Eu? Eu sou aquele a quem chamaste.

- Eu não chamei você. Eu chamei Deus. Por acaso você é Deus – disse a menina desconfiada.

- Quer que eu seja? Então eu sou.

Como milagre o tempo parou. As crianças que brincavam no carrossel, no gira-gira, no escorregador e no balanço ficaram paralisadas como estátuas. Então o homem pegou a mão de Cristina e a levou pelos ares. Voaram como se fossem pássaros, indo pousar no quarto do hospital onde Luisinha estava internada com a perninha engessada. Quando a doentinha viu a amiga acompanhada daquele senhor de cabelos brancos perguntou:

- Cristina, você veio me visitar, cadê a irmã Josélia? E este senhor, ele é o seu avô?

- Não. Ele é Deus. Ele é bonito, não é? Ele sabe voar e eu voei com ele para dar o seu presente de Natal. – disse a menina toda entusiasmada entregando a folha de papel para amiga que, depois de ler, guardou-a embaixo do travesseiro.

- Oi, Deus! Eu sou a Luisinha. Ainda não posso sair da cama porque o meu joelho dói muito.

E Deus, aproximando-se do leito da menina, colocou a mão sobre o joelho doente e disse:

- Está doendo agora?

- Não. Estou sentindo um calor na perna. Só isso.

- Amanhã estará no orfanato ao lado de sua amiga e das outras crianças. – disse o Todo-Poderoso.

De repente Cristina se viu novamente no orfanato, no mesmo lugar. Tudo continuava como antes, a brincadeira, a gritaria das crianças nos brinquedos, foi como se ela não tivesse saído dali.

- Como fez isso? Nós nem voamos de volta! – perguntou a menina.

- Você disse que sou Deus, e para Deus nada é impossível. Saiba, menina que para você eu reservei uma missão especial, e, quando crescer, fará tudo aquilo que desejou hoje e eu estarei ao seu lado guiando a sua mão e a sua cabeça.

Dizendo estas palavras, o homem alto de cabelos brancos ergueu os pés do chão e foi se elevando diante dos olhos abismados da criança e desapareceu no azul do céu. À noite Cristina foi dormir com pensamentos martelando a sua cabeça: Ela chamara Deus, e ele veio. Como será que ele ouviu. Será que ela o veria novamente? Finalmente adormeceu.

No dia seguinte, na parte da manhã, a freira, diretora do orfanato, recebeu um telefonema do hospital.

- Irmã Glória, a menina Luisa já está de alta. Pode vir buscá-la. – dizia a voz da enfermeira do outro lado da linha.

- Como? O médico disse que ela talvez saísse depois do ano novo!

- Pois é, irmã, o médico também não acreditou, mas a fratura sarou, não tem nem sinal. Ele acha que foi milagre, um milagre de Natal.



Maria Hilda Alão

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