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ANITTA BARROCO

"AQUAE FLAVIAE"

"AQUAE FLAVIAE"

EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

 

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

 

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

 

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

 

 

Florbela Espanca

Que importa

 

Eu era a desdenhosa, a indiferente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão,
Como bate no peito à outra gente.
 
Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de desejo ou de emoção,
Enquanto as asas loiras da ilusão
Abrem dentro de mim ao sol nascente.
 
Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte,
Toda ela é riso, e é frescura e graça!
 
Nela refresca a boca um só instante...
Que importa? Se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes... quando passas?
 
 
 
http://www.zeliars.hpg.ig.com.br

Angústia

 

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a cidra num momento!
 
E não se quer pensar! E o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Querer apagar no céu - ó sonho atroz! -
O brilho duma estrela com o vento!
 
E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: "O que te resta?"
 
Ah! Não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!
 
 
http://www.zeliars.hpg.ig.com.br/angustia.html

A Minha Dor

 

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
 
A minha Dor é um convento.Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
 
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve...ninguém vê...ninguém...
 
 
Florbela de Alma da Conceição Espanca

Poema do amigo aprendiz

http://www.tudoemcima.hpg.ig.com.br/amigo4.jpg

Poema do amigo aprendiz
Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...

 

 

 

Fernando Pessoa

 

O SOL

http://blogdaloura.blogs.sapo.pt/arquivo/sol.jpg

Sinto como imagino que o sol se sente,

o sol buscando os seus atalhos

no interior das horas naturais, nos equilíbrios sem eixo,

sobre as sequências de imagens, errando nas biografias

sem molduras, sobre as silhuetas dos carros,

sem a fadiga de um pequeno abraço ou a mudez

premeditada de um delírio convalescente,

o sol explorando o infinito da superfície vagarosa,

contornando a água de uma lágrima, impalpável

e deslumbrante, silenciosamente no caminho dos versos.

O sol que na aurora apunhala a noite,

O sol que não permite que os céus se colem,

O sol que movimenta as transparências dos homens e mulheres,

O sol que apaga a nitidez dos detalhes inúteis,

O sol que dá corda aos pássaros e aos ruídos,

O sol poético, o sol insone, o sol-ignição-de-todas-as-cores,

O sol eterno, o sol-víbora, o sol que te estranha,

O sol que te ama,

O sol, o sol, o sol...

 

 

 

Tiago Nené

in Instalação

 

(pré-publicação, a sair em 2009)

 

O TEU BEIJO

http://www.montradigital.com/data/media/5/Beijo.jpg

 

 

Um dia acordo e

o teu beijo

é a neve no olhar

duma gaivota

num voo desigual

de insana rota.

 

 

Alexandra Malheiro

 

 

LAGARTOS

http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/images/108_lagartosfotos/5104316_lagarto_guitarra_g.jpg

 

Eu: assim começa o poema

Eu vi ontem, sem ir muito longe, um lagarto feliz.

Claro, afirmar que vi um lagarto

e que esse lagarto é feliz são afirmações que,

apesar da sua coerência, parecem

impróprias de mim.

Tudo pode explicar-se razoavelmente

se tomarmos por indubitável a primeira

afirmação, a primeira certeza:

certamente, ontem vi um lagarto.

Com alguma indulgência, ante mim,

ante o lagarto,

alguém podia crer sem qualquer ciência

na existência de lagartos felizes,

e quanto a isso, não custa nada convencer-se

de que um de nós é o lagarto feliz que vi ontem

dentro da relva,

desde a margem,

sobre o telhado.

Pena que ontem não tive tempo

de sair desta casa sem janelas.

 

 

Rosario Pérez Cabaña,

in Mientras Tú Cantas

(tradução de Tiago Nené)

 

 

AH, A MÚSICA

 


Quem terá deixado esquecida
esta música ouvida num canto da rua?
Ninguém de quem passa nela repara
No entanto - é ela - faltava
no dia de chuva
No meu dia de chuva?
Meu seria decerto este dia
pois por mais precário que eu seja
nenhuma chuva fora podia
cair se acaso em mim não caísse
Cai chuva e há música em meu coração
Era mera ilusão o dia de chuva.

 

 

A MISSÃO DA FOLHAS

Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu -soube que a missão das folhas
é definir o vento.

 

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